segunda-feira, 13 de julho de 2020

Se for engraçado, é lucro: Fujão

Dois amigos saem para caçar nas florestas canadenses e tentar garantir o alimento para si e para suas famílias. Não muito após saírem de suas casas portando seus rifles, os dois amigos são surpreendidos por um Grizzly Bear, uma das espécies de urso mais agressivas do bioma em que habitam. Rapidamente os amigos percebem que a munição que traziam consigo não seria suficientemente capaz de para o urso.

Nesse momento, a resposta Fight-Flight dos amigos é bastante diferente: enquanto um dos amigos se vê completamente paralisado pela situação, o outro rapidamente começa a correr como se não houvesse amanhã (o que poderia muito bem ser o caso).

Amigo 1: É inútil! Você não consegue correr mais que um urso!

Amigo 2: Eu sei! Mas eu consigo correr mais que você!

 

Moral da história: na maioria dos conflitos, o grande objetivo não é tornar impossível o que a outra pessoa deseja, mas sim torná-la algo não lucrativo. Por mais que seja possível para o urso alcançar qualquer um dos amigos, ao correr, um deles tornou sua perseguição não lucrativa para o urso ao aumentar os custos da caça.

 


domingo, 12 de julho de 2020

Eu sou a (próxima) lenda!

                Anualmente, em todo mês de junho (exceto em períodos de pandemia), acontece o NBA Draft. Trata-se de um evento no qual os times da NBA escolhem jogadores de fora da liga para compor seus times. Este evento marca a possível ascensão ao estrelado para dezenas de jovens jogadores que decidem tentar um futuro na maior e melhor liga de basquete do mundo. Para as equipes, o evento representa a escolha de possíveis rostos a serem estampados em outdoors, de propulsores de venda de camisas mundo afora, de personagens que motivam a cobrança de ingressos com preços estratosféricos. Mas lógico, tais rostos serão pagos somas “obscenas” em salários.

                Os fatores que tornam um rapaz uma estrela do basquete podem até ser fáceis de enumerar, mas são igualmente fáceis de se identificar em um indivíduo específico sem a convivência e o tempo necessários para conhecê-lo. Não são raros os casos em que abusos de drogas, problemas psicológicos, crimes, perda de motivação, problemas de temperamento e personalidade, e casos de doping que ocorrem ao longo da carreira de um jogador. Portanto, os times precisam criar mecanismos para identificar tais atributos, e diferenciar uma estrela em potencial de um jogador para composição de elenco.

                Cada indivíduo possui atributos favorecem ou não a excelência no basquete. Para organizar o raciocínio, vamos dividi-los em dois grupos: os fatores individuais que têm pouca ou nenhuma maneira de serem manipulados pelos atletas, tais como etnia, sexo, altura e envergadura são chamados de índices; e os outros que são mais suscetíveis à manipulação como personalidade, motivação, e habilidades são chamados de sinais. Apesar de os índices serem importantes, são os sinais que vão influenciar de maneira mais marcante, jogo após jogo, se o atleta fará aparições constantes no time em quadra, ou se esquentará o banco. O problema é quando saber se um sinal reflete performances de uma lenda do esporte, ou quando se trata de uma manipulação sutil para parecer melhor do que se é.

                Na tentativa de decodificar os sinais enviados pelos atletas o mais rápido possível, os times contratam profissionais muito bem pagos, os chamados scouts, que tentam continuamente decifrar esse enigma. Os jogadores se apresentam para fazer uma bateria de testes físicos, de testes de habilidades, e participam de jogos de pré-temporada, tudo de forma a sinalizar sua competência se tornarem “a cara” do time.

                Mas apesar de seus esforços, as reais capacidades dos atletas só serão observadas quando a bola subir em um jogo oficial. Após cada jogo, de acordo com a performance do escolhido, as expectativas dos seus chefes são adaptadas de forma a refletirem seu desempenho, pois eles acumularão mais informação sobre os atletas. Assim, dependendo dos acontecimentos, as equipes ajustarão os salários oferecidos ao jogador conforme suas habilidades vão sendo reveladas.

                Assim, a forma com que os jogadores decidem apresentar as informações sobre si podem afetar decisivamente a escolha de um time numa noite de junho, e por conseguinte, definir o rumo de suas carreiras quase que para sempre. A ideia econômica aqui é justamente a da sinalização, que é utilizada pelas pessoas para criar formas de diferenciarem das demais e indicar suas aptidões, preferências e intenções.


sábado, 11 de julho de 2020

Detalhes, porque detalhes importam

                    O deveras pesado sono de João Augusto da Silva é interrompido por uma voz amiga. Sua mãe, entre cozinhar e passar e limpar a mesa da cozinha, grita “Acorda pra se arrumar! Senão vai se atrasar pra escola!”. Numa sonolência cambaleante, João se dirige ao banheiro , afinal, são 5 da manhã. Na correria, João precisa engolir o café, fazer alguns minutos de caminhada, e pegar um ônibus de uma hora e meia de trajeto para estar na escola às 7h30 em ponto. Ao chegar, João encontra Antônio e José, e juntos eles passam o dia em meio à estridentes horas de língua portuguesa, matemática e gritos de “Silêncio turma!”.

                Erik Johansson, mesma idade de João, acorda calmamente ouvindo a voz de sua mãe que calmamente prepara a refeição. Após o banho, Erik encontra seu pai e sua mãe à mesa para um longo e calmo café da manhã. Erik e sua mãe saem de bicicleta num bem arborizado trajeto de 25 minutos para chegar no horário. Ao chegar na escola, Erik encontra Astrid e Petri, e juntos navegam tranquilamente por aulas de língua sueca, língua inglesa, matemática, história, música e educação física.

                É bastante óbvio que a probabilidade do sueco Erik possuir um futuro econômico mais próspero que o brazuca João é bastante alta, e a diferença de qualidade entre as escolas tem um importante papel. Eu sei, eu sei. Assim como nas duas histórias, existem muitos fatores além do investimento em educação que afetariam o resultado final (afinal, a Suécia é um país muito mais rico, com população mais homogênea, extensão geográfica muito menor, infraestrutura sofisticada, etc), no entanto, a tamanho do impacto pode variar, mas não a direção.

                Sabemos que mesmo no Brasil, não são todas as escolas que caem aos pedaços, mas de forma geral, elas têm algo em comum: a baixa qualidade do serviço. Engana-se quem acha que o que falta é investimento. O Brasil gasta por estudante mais do que outros BRICS (para comparar maçãs com maçãs). O que faz então o ensino ter qualidade subótima? A forma de usar o dinheiro investido. O repasse direto às escolas visa garantir a educação “gratuita” à uma parcela da população, mas como é sabido, os resultados não são dos melhores.

                A educação na Suécia também é “gratuita”, mas a forma com que os recursos são alocados é ligeiramente diferente do que na terra da jabuticaba. Mais próximo ao polo norte, as famílias recebem um voucher de educação que garante ao estudante a possibilidade de matrícula em qualquer escola do país, seja ela pública, privada, ou um misto dos dois. Uma diferença sutil capaz de gerar impactos bem distintos.

                O voucher atinge bons resultados de duas formas: a primeira é que ele ajuda a reduzir a barreira financeira do acesso à boas escolas (apesar de não acabar com ela, já que a condição financeira está associada a morar em áreas melhores, que geram benefícios associados); a segunda é que para receber, as escolas teriam que competir em qualidade de ensino e, ao mesmo tempo, precisariam sinalizar para as pessoas que a sua escola é a melhor para João, ou seja, precisariam ter os melhores professores, forneceriam melhores estruturas; terceiro, facilitaria o surgimento de novas escolas em regiões desprovidas, uma vez que isso se tornaria uma opção de renda para um conjunto de moradores.

                Detalhes, dizem que é a residencia do Diabo, tanto do Diabo personificado quanto do diabo abstrato. Detalhes importam, e muito, cabe a nós importar o que bom.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Se for engraçado, é lucro: Assalto à banco

Faroeste americano, século XIX. Juan era acusado de cometer um assalto à banco em uma pequena cidade texana que faz fronteira com o México.

Um pequeno grupo de policiais então segue as pistas deixadas e chega até uma cidade mexicana fronteiriça. Após horas, finalmente o grupo encontra e encurrala Juan em um bar da cidade.

O grupo então descobre que Juan não fala inglês, e por isso, se veem numa situação complicada. Então, um dos clientes do bar, com um sotaque bastante marcante, informa que poderia fazer a tradução.

O líder grupo então exclama:

- Pergunte a ele aonde está o dinheiro!

Tradução feita, Juan responde:

- Diga a eles que jamais falarei!

Tradução feita, o policial retira sua arma e aponta para Juan:

- Diga que se ele não disser aonde está o dinheiro, ele morre.

Tradução feita, Juan totalmente amedrontado e trêmulo diz:

- Eu deixei escondido na ponte, à beira do rio.

O tradutor então diz:

- Juan disse que não tem medo de morrer.

 

Moral da história: Ao ser o único a saber aonde estava o dinheiro, e sabendo que os policiais provavelmente matariam Juan, o tradutor possuía grandes incentivos a mentir aos policias e fazer o mínimo de esforço para buscar o dinheiro. Isso ilustra a ideia da compatibilidade de incentivos. Para um determinado sistema econômico funcionar, é preciso que agir de forma a fazer o sistema funcionar esteja no interesse das pessoas envolvidas. Resumidamente, incentivos são motivadores de ação, podendo ser cultural, financeiro, filosófico, emocional, etc. Entender os incentivos em dada situação é essencial para uma boa análise econômica. 


sábado, 4 de julho de 2020

Um breve guia sobre como ouvir música

                Você gosta de música? Na verdade, esta é uma pergunta um tanto tola. Talvez uma mais apropriada seja: quem não gosta de música? Mas diga, como você ouve música? Você simplesmente coloca o fone de ouvido e reage aleatoriamente? Gostaria de ter uma nova experiência ao ouvir aquela música que te fez chorar tantas e tantas vezes? Este pequeno guia te mostrará como. (Esse parágrafo está deveras parecendo uma propaganda de vendas)

                Apesar de todos se identificarem com algum estilo musical, em geral, as pessoas não procuram ouvir uma música de forma sistemática. O principal receio de se ouvir analisando uma música é o de que, de alguma forma, a pessoa se tornaria um autômato insensível, sem qualquer conexão sentimental com a música. Isso é verdade, pelo menos no começo da jornada. Mas lembre-se que qualquer habilidade precisa ser desenvolvida com paciência e persistência até que você não precise mais pensar no que está fazendo, apenas agir de forma automática e intuitiva.

                O primeiro passo da jornada é repartir a música em quatro pedaços: ritmo, melodia, harmonia e timbre. Ao dividir para conquistar, conseguimos observar os detalhes de cada elemento sem sermos soterrados pela avalanche informações encontradas em uma peça musical.

                De maneira simples, o ritmo é a sequência com que os sons são produzidos ao longo do tempo; a melodia é a execução sequencial de notas musicais individuais; a harmonia é a execução sequencial de notas musicais em conjunto[1]; e o timbre é o colorido do som que é produzido. Cada um desses conceitos têm versões mais sofisticadas dentro do estudo da música, mas isso é irrelevante para o nosso objetivo. A seguir, estão as dicas para o desenvolvimento da percepção de cada elemento.

                Ritmo: o primeiro passo para dominar a noção de ritmo é prestar a atenção nos instrumentos que conduzem a percussão da música. Mais usualmente, instrumentos como a bateria e o contrabaixo exercem esta função. No entanto, dependendo ou do estilo ou de uma música específica, qualquer outro instrumento pode assumir esse papel. O segundo passo é estabelecer um pulso em intervalos constantes de tempo, reagindo à pulsação da música (pode também contar 1,2,3,4), para isso, imagine o movimento de um ponteiro que marca os segundos em relógio, essa é a sensação de um pulso em intervalos constantes.

                Melodia: o primeiro passo é identificar o instrumento que está executando a melodia principal da música, no caso de canções, obviamente, quem conduz a melodia principal é a voz, mas este não é o caso em músicas instrumentais, portanto, procure observar qual instrumento se destaca. Segundo, preste a atenção nos movimentos da melodia, isto é, se ela permaneceu (mesma nota), subiu (ida para uma nota mais aguda), ou desceu (ida para uma nota mais grave). A dica essencial é tentar cantar as notas, mesmo que não seja totalmente afinado, isso te dará noção de movimento requerida.

                Harmonia: a primeira dica é identificar se os sons trazem a sensação de tranquilidade, paz, e sossego (sons consonantes), ou se provocam a sensação de choque, perturbação, e desconforto (sons dissonantes). O segundo passo é tentar identificar quais emoções o conjunto de notas te desperta. Tente começar com alegria e tristeza, ajudará sua evolução no início.

                Timbre: nesse elemento, o passo mais produtivo é realizar o exercício de ouvir e tentar comparar as suas ou os seus dois cantores favoritos. Perceberá que mesmo executando a mesma nota musical, a qualidade do som é diferente, uns têm a voz mais “brilhosa” e outros a voz mais “escura”, uns tem a voz mais “limpa”, outros tem uma voz mais “áspera”. Após adquirir mais familiaridade, você conseguirá aplicar essa ideia aos demais instrumentos.

                Ao tentar incorporar esses novos super poderes às suas experiências musicais, você conseguirá identificar sons, descrever sentimentos, e lógico, impressionar os amigos.

 



[1] O termo harmonia pode também ser entendido como o estudo de notas, acordes e escalas. No entanto, consideraremos a definição expressa no corpo do texto.


Provar de um tudo?

             
              Certa vez, dialogando com uma jovem senhorita sobre o fato de eu ser declaradamente abstêmio, que na tentativa de me convencer a violar tal princípio, recorreu à reincidente interrogação “Como você vai saber se não gosta se não provar?”. Esse questionamento, muito recorrente, diga-se de passagem, me fez respondê-la com o outro questionamento “É preciso provar de um tudo?”, respondido com um nada hesitante “Sim”. Continuando o diálogo, lhe perguntei “Você gosta de assassinar e esquartejar pessoas?”, ela, visivelmente chocada disse “Não! Que horror!”, “Como você vai saber se não gosta se não provar?” perguntei de forma quase que retórica. Seu silêncio ensurdecedor foi a resposta.
            Em uma análise apressada, o “provar de um tudo” parece ser trivialmente aceitável e tentador o suficiente para ser essencialmente irrecusável. Apesar de um exemplo exagerado e bizarro, “assassinar e esquartejar” mostra que tal ideia claramente possui limites geralmente não explicitados no dia a dia. Deste modo, a pergunta chave é: como tornar seus limites explícitos? A resposta é, simplesmente, por meio de princípios.
            Posto de forma simples, princípios são conhecimentos abstratos que representam uma vasta gama de fatos concretos. Sem princípios estaríamos perdidos, tentando redescobrir tudo sobre tudo o tempo todo. Você consegue se imaginar “redescobrindo” a lei da gravidade toda vez que você deixar cair um objeto qualquer ao chão, ou quando tropeçar e por pouco evitar uma desconfortável cicatriz facial? A gravidade é um princípio de origem científica que nos permite compreender e lidar com uma ampla série de acontecimentos, sejam eles cotidianos ou não. Assim sendo, princípios possuem implicações bastante importantes na maneira como navegamos pelo mundo.
            Voltando ao diálogo inicial, minha interlocutora respondeu negativamente à ideia macabra sem perceber sua resposta foi balizada por princípios herdados, ou concebidos ao longo de sua vida, e que balizam diariamente suas ações e opiniões, permitindo que ela observe e interprete o mundo, sem precisar redescobrir a gravidade a todo instante.
            Existem várias formas através das quais esses princípios são adquiridos e desenvolvidos: religião, filosofia, ciência, experiências pessoais passadas, tradições familiares. Ao longo da vida, cada indivíduo seleciona princípios que possam lhe servir para guiar sua existência. Em contraponto, a ideia de experimentar de um tudo, se levada à risca, significa descartar completamente os princípios já estabelecidos, não oferecendo nada além de um caos existencial que torna a vivência não apenas incômoda, mas também impraticável. É ingênuo supor que todos os princípios sejam totalmente rígidos ou que nenhum deles deva ser testado, mas claramente uns são muito mais rígidos do que outros, e alguns, inclusive quase que atingindo status de verdades incontestáveis.
            Afinal, o que isso tudo tem a ver com economia? Quando se fala em economia, escassez é a nossa gravidade. Esse o princípio que fundamenta todo o pensamento científico e filosófico da disciplina. A maneira como nós enquanto pessoas lidamos com a escassez é o tema implícito em cada análise econômica. Ignorar esse princípio, assim como ignorar a gravidade, provou-se inúmeras vezes receita certa para o desastre. Lembre-se onde há escassez, há economia.